Publicada mensalmente desde 1902 pelos jesuítas portugueses, a revista Brotéria é uma publicação cultural de inspiração cristã.

 

Há 120 anos, três professores de um colégio na Beira Baixa fundaram a Brotéria: Revista de Sciencias Naturaes. Na altura publicavam-se artigos de botânica, zoologia e genética, em muitos dos quais foram classificadas novas espécies de animais e plantas. Pouco tempo depois, passaram também a surgir artigos sobre química, física, medicina, biologia e agricultura. Em 1955, nasceu mais um ramo da Brotéria, que continuou a crescer até hoje — a revista de Cristianismo e Cultura.

120 anos depois, a Brotéria já não é só uma revista. Hoje faz parte do projeto multidisciplinar do centro cultural no Bairro Alto e de uma forma redonda de ver aquilo que nos rodeia: oferecendo uma reflexão escrita serena e rigorosa sobre o mundo e contribuindo para a discussão dos principais temas de hoje na literatura, política, arte, história, filosofia, religião e bioética.


Volume 198 — 2, fevereiro 2024


Francisco Martins SJ

No século passado, assistiu-se, no seio da Igreja Católica, a uma revolução na forma de conceber e de relacionamento com o povo judeu. Em reação aos horrores do Nacional Socialismo e depois de séculos de desconfiança e até de desdém, nasceu uma doutrina mais conciliadora, que devolveu ao povo judeu o lugar de privilégio que ocupa na economia da salvação. Traçam-se aqui as etapas deste desenvolvimento que teve como marco decisivo a Declaração do Vaticano II sobre a Igreja e as religiões não-cristãs. A Igreja redescobriu, no cânone das Escrituras, textos até ali quase completamente ignorados e tomou-os como ponto de partida para uma renovada reflexão sobre o povo da Primeira Aliança, revisitando também os textos sagrados que tinham servido para perpetuar uma visão exclusivamente negativa da sobrevivência do povo judeu, propondo uma interpretação historicamente mais acurada e teologicamente mais consequente.


Nelson Faria SJ

O termo wokismo define aqueles que se consideram “acordados” (do inglês woke) para a forma como toda a sociedade está permeada de injustiça e é imune a reformas. Parecendo, num primeiro olhar, um movimento de movimentos que alberga e dá voz ao feminismo e a todas as minorias da sociedade, é, de facto, bastante mais complexo, podendo ser considerado uma ideologia política em si mesmo, com fundamento noutras escolas de pensamento e virado para a ação. Envolto em polémica, é, ele mesmo, polémico, gerando reações particularmente adversas que, à falta de melhor nome, podem ser designados de antiwokismo. O encontro entre ambos pode traduzir-se em conflitos que são fonte de intensa crispação social. Revisitando brevemente o momento gerador do wokismo, apresentam-se os fios com os quais se tece a trama woke e suas repercussões, para traçar, por fim, algumas linhas sobre
o futuro possível.


Candace Vogler

Várias tradições insistem na ideia de que, no começo, o Homem existia na sua versão ideal. Para os cristãos isto corresponde, entre outras coisas, a uma combinação das nossas qualidades. Mas o facto de, de certa forma, termos consciência das qualidades que definem esta versão ideal não nos impede de agir contra as mesmas. Como é que então nos distanciamos desta matriz que as virtudes adquiridas ajudam a conferir às nossas vidas? E por que razão é que isso poderá ser sério? Ainda que pecado não seja o mesmo que vício, os dois não se encontram totalmente desligados. Para que um vício exista, não é suficiente que se pratique ocasionalmente o mal. É necessário que tal se torne num hábito. E é mais fácil perceber o que isso implica se se começar por observar o outro tipo de hábito que existe: a virtude.


Luís Filipe Thomaz

No seguimento do artigo “O Nagorno-Karabagh, a não esquecer”, publicado no número de janeiro da Brotéria, percorre-se a história da Arménia que é caracterizada como “nação enguiçada”. Sempre entalados entre grandes impérios, os arménios apenas conseguiram formar um estado independente em três momentos da sua história. Foi o primeiro país do mundo a aceitar oficialmente o cristianismo, após o que criou uma igreja nacional, dotada de uma tradição própria. Vítima de sucessivos massacres e sobretudo do genocídio em 1915, perderam entre os séculos XIX e XX mais de um milhão de pessoas. Hoje, o seu inimigo é o panturquismo que pretende unir os turcos da Europa e da Anatólia aos do Azerbaijão e lhe conseguiu já arrebatar o Nagorno-Karabagh, onde mais de 90% da população é arménia.


José Frazão Correia SJ

Pela mão de João XXIII, a expressão evangélica “sinais dos tempos” passou a entrar no vocabulário do Magistério da Igreja como categoria de construção de pensamento e orientação de práticas pastorais. O concílio Vaticano II assumiu-se, ele mesmo, como ato de atenção à “voz divina” a ecoar no “mundo secular” e à realização do Reino de Deus em traços culturais do momento histórico presente. Por entre as linhas da história, curvas tantas vezes, reconhece-se haver forças evangélicas a agir, que amadurecem em determinados movimentos sociais e em novas formas culturais. Honrar a realidade e reconhecer nela densidade espiritual e fecundidade evangélica é assumido como forma de profecia eclesial. Contra a tentação da separação e da imunização, cabe manter viva a atenção aos sinais que o Espírito dá através do nosso tempo e reconhecer, bendizer e cuidar das muitas formas com que o bem se vai revelando, por vezes de forma inédita e em lugares improváveis.


Luís Maria da Providência SJ

Inácio de Loiola (1491–1556), fundador da Companhia de Jesus com um grupo de amigos da universidade de Paris, forjou, a partir da sua própria experiência de conversão, uma ferramenta poderosa de exercitação espiritual a que deu o nome de Exercícios Espirituais. Pretende-se fazer aqui uma apresentação sintética deste método, destacando a importância da prática de repetição espiritual mas também corporal, em vista de uma experiência de fé impulsionada pelo uso da imaginação. Destaca-se a sua força existencial e cristã ainda hoje, tendo em conta os traços culturais do nosso tempo e a forma como determina os percursos biográficos.


Nuno da Silva Gonçalves SJ

Uma retrospetiva histórica leva a constatar que, durante muitos séculos, o cristianismo aceitou, de facto, a escravatura como uma realidade social e económica própria da maior parte das sociedades. O pensamento cristão aceitou-a em determinadas circunstâncias. Não causava, por isso, estranheza que, em diversos continentes, muitas instituições da Igreja utilizassem escravos para os trabalhos domésticos e agrícolas. Do mesmo modo, não surpreende que algumas vozes mais radicais em favor da liberdade não tenham sido ouvidas, permanecendo isoladas e sem consequências.
Pode afirmar-se, em todo o caso, que o cristianismo, numa perspetiva de longa duração, contribuiu para o desabrochar
progressivo do reconhecimento da dignidade de todos os seres humanos, participando no movimento lento que levou,
durante o século XIX, à abolição do tráfico de escravos e, de seguida, à abolição da própria escravatura.


Frederico Vicente

Este é um ensaio em forma de viagem de carro, pela N10. Atravessa a planície da margem sul do Tejo, contornando, depois, a serra pelo Vale da Rasca e subindo a N379-1, a estrada alta da Serra, até ao Convento Franciscano de Nossa Senhora da Arrábida. Desce depois, caminhando até ao Portinho. É uma viagem escrita de caderno no bolso e sugere-se o entardecer do verão, em setembro.

Broteria-07

 

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