Volume 192-5/6, Maio/Junho 2021

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Bernardo Pinto de Almeida

Será a experiência da pandemia suscetível de ser pensada fora da mera descrição dos seus devastadores efeitos e da incerta especulação de ordem científica que a vem rodeando? Poderemos distanciar-nos dela a ponto de ganharmos esse espaço e tempo de recuo que o pensamento requer para começar a produzir luz sobre o seu objeto? A presença desta pandemia, análoga apenas das antigas pestes, recoloca- nos diante de uma inesperada condição de incapacidade para lidar com forças que se vêm de súbito jogar no mundo sem qualquer aviso. Não por acaso a pandemia trouxe de volta, imediatamente, um reavivar exponencial da presença da televisão e, mais em geral, dos meios de transmissão e comunicação visual, como a net ou as redes sociais – a perceção da pandemia requer, para se ver devidamente representada, e só depois, talvez, pensada – um regresso sobre as potências da imagem.


António Júlio Trigueiros SJ

A 20 de Maio de 1521, o cavaleiro Iñigo de Loiola foi ferido numa batalha em Pamplona, será durante a sua penosa convalescença que se dará uma profunda transformação no seu íntimo, a ponto de mudar totalmente o rumo da sua vida. Inácio recorda esse momento de conversão, reconhecendo «que le parecían todas las cosas nuevas». Esta expressão – Ver novas todas as coisas – foi escolhida como tema deste ano inaciano, que assinala para além dos 500 anos da conversão, os 400 anos da canonização de Inácio de Loiola (juntamente com Francisco Xavier, entre outros) que ocorreu a 12 de março de 1622.


Nuno Sampaio

A Comunidade Económica do Carvão e do Aço (CECA), instituída em 18 de abril de 1951, nasceu daquele leito de cinzas e de esperança que era a Europa do Pós-Guerra. Entre o sonho e o pragmatismo, entre passados sangrentos e futuros por construir. A ideia mobilizadora, mais das elites do que dos povos, já lá estava: a de que a paz seria assegurada por interesses de reconstrução e de desenvolvimento económico comuns. A CECA, e a construção europeia, nasceu, assim, dessa necessidade e dessa aspiração a uma partilha pacífica de recursos. O planeamento foi sendo transportado para uma escala europeia e interestadual e tornou-se num modelo de sociedade com o Estado providência, o planeamento social. Quando observamos a resposta da União Europeia à crise económica e social provocada pela pandemia, vemos que a crença no planeamento continua bem presente. Mas, passadas sete décadas, de que realidade, de que sonhos e pragmatismos é feita a construção europeia?


João Muñoz de Oliveira

Neste momento, temos um Estado que controla burocraticamente todas as escolas, tutelando o sistema e simultaneamente intervindo nas suas práticas, como se fosse possível ser árbitro e jogador ao mesmo tempo. Ao Estado compete assumir o papel de garantia do sistema e abandonar o de fornecedor de serviços, o que facilmente se entende porque quem fornece esses serviços não pode simultaneamente garantir a sua qualidade e fiscalizar tudo o que está a acontecer. Dessa maneira, num sistema em que prevalece a liberdade – de ensinar e de aprender – é possível recentrar as atenções naquilo que deverá ser o enfoque essencial em qualquer sistema educativo: os alunos e a qualidade da sua educação.


Domingos Terra SJ

Falar de tradição leva a pensar em enraizamento, enquadramento, herança, identidade. Mas ela é assunto que nem sempre é corretamente compreendido e valorizado. Gera ideias e sentimentos diversos nas nossas sociedades. Daí a pertinência duma reflexão que se ocupe especificamente da tradição cristã. Assim, começamos por realçar que esta é de primeira importância para quem se situa nela. Depois, vemos o que o Concílio Vaticano II diz a seu respeito. Em seguida, apresentamos a dita tradição como caudal em desenvolvimento. Por fim, expomos os contornos da identidade cristã que ela sustenta.


João Manuel Duque

O teólogo Hans Küng, falecido no passado dia 6 de Abril tornou-se uma figura importante no contexto do debate sobre o valor do religioso – e mesmo do cristianismo – valorizando o papel das religiões, segundo as suas diversas tradições, com especial enfoque no judaísmo e no cristianismo. Nesse contexto específico, as questões polémicas, que provocaram o seu afastamento da lecionação, deixaram de ser tema de discussão ou mesmo de interesse. Num mundo secularizado, as questões humanamente e teologicamente mais fundamentais ganham outro relevo, secundarizando mesmo questões doutrinais e, sobretudo, disciplinares. Talvez o próprio percurso de Hans Küng, ao longo das últimas décadas, seja um claro sintoma das transformações sociais e eclesiais que nos tem acompanhado. Nesse sentido, terá sido uma testemunha viva do nosso tempo.


Paulo Drumond Braga

O reinado de D. José I assistiu à afirmação plena das Secretarias de Estado que começaram a funcionar com uma eficácia que não haviam conhecido nos primeiros anos. Por outro lado, evidenciou-se cada vez mais a supremacia desse embrião de governo sobre os demais órgãos da administração central. O marquês de Pombal acabou por ser qualquer coisa entre um valido à moda do século XVII e um primeiro-ministro antes do tempo. Essa complexificação da ação governativa, aliada à idiossincrasia da própria personagem, que não pode nem deve ser negligenciada, levou a que Carvalho e Melo tenha tido uma ação tendencialmente tentacular.


Mariana Bacelar de Sousa

A arquitetura é concebida para ser percorrida e habitada e, por isso, a viagem continua a ser essencial para a experiência física do espaço. Seguindo a tradição da peregrinação, a viagem tornou-se um exercício para a formação profissional e humana. São diversos os exemplos de arquitetos que ao viajarem registaram em diários de que modo a arquitetura dava respostas às suas próprias inquietações. Para compreender o peso da viagem nos projetos de arquitetura, propõe-se a leitura dos diários de viagem de Le Corbusier e de Gunnar Asplund, como dois exemplos de perspetivas sobre o espaço e o propósito do caminho.


Paulo Nóbrega Serra

Luís Cardoso é um dos raros autores que tem Timor como berço. A sua profícua obra centra-se em temas como a memória, a identidade, a História. Os seus livros interligam-se ora com referências explícitas ao autor e às obras do autor, ora por episódios ou motivos que vão ressurgindo. Esta intertextualidade homoautoral serve como comprovação da existência de um mundo ficcional muito próprio, atestando a criação de um imaginário que efabula e recria toda uma geografia da alma. Neste artigo tratar-se-á da questão da leitura como travessia em três romances que formam uma espécie de tríptico.


Dimensões
15 x 23,4

Nr de páginas
114

ISSN
0870–7618