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A propósito da celebração dos 120 anos da Brotéria, Mafalda Ruão entrevistou o P. João Sarmento SJ para a edição online da revista Umbigo, numa conversa centrada, sobretudo, na relação entre a Igreja e a arte. Uma das perguntas dessa entrevista e a respetiva resposta servem de ponto de partida para este editorial:

 

MR Segundo a galeria da Brotéria, “Há dinâmicas do cristianismo e da espiritualidade que, implícita ou explicitamente, atravessam as disciplinas e linguagens próprias das práticas artísticas contemporâneas…” Têm a cultura e a arte o poder de conectar teorias teológicas, políticas de tomada de decisão e os atuais problemas iminentes e globais? De que forma?

JS Dependerá sempre do tipo de arte e de cultura de que estamos a falar. Creio que o universo cultural e a arte que nos interessam são exatamente aqueles movimentos que se orientam à formação de um lugar privilegiado para essa conexão. Um pensamento que conflua numa cultura de encontro (expressão do Papa Francisco). Onde se dá a conexão entre os diferentes, real e radicalmente. Seja um espaço seguro para convivialidade da discórdia, para a experimentação e para o erro.

A teologia, tal como a filosofia, propõem-se, sem pudores, a avançar numa investigação sobre toda atividade humana. Deste modo, uma boa teologia tem as mãos e os pés sujos, aventura-se floresta adentro. Por isso, os dramas contemporâneos, como os de sempre, são a matérias-primas do pensamento e da ação.

A cultura do esteticismo alienante, pelo contrário, deixa-se consumir à velocidade do scroll. Suga o tempo, capitaliza tudo, de modo a fazer do pensamento uma resposta à pressa, tendencialmente polarizada.

Quando dizemos que existe espiritualidade, implícita ou explicita, na produção da cultura contemporânea, estamos, desde logo, a reconhecer uma espécie de teologia do olhar, dado que a nossa hermenêutica é a de ver a Deus em todas as coisas e todas as coisas em Deus (como dizia o fundador dos jesuítas, Santo Inácio de Loyola). Não compreendo, por isso, a existência de duas esferas – a teológica e as demais realidades – tocando-se por um reduzido espaço de tangência. Mas, antes, reconhecemos a realidade como uma coisa múltipla. Cheia de contradições, absurdos, dissonâncias e tantos outros processos surpreendentes, como que um mundo “em trabalho de parto”.

 

O ano que agora começa oferece à Brotéria a oportunidade de continuar a tornar concreta a sua identidade e a sua missão. Fazê-lo é para a nossa equipa fonte de entusiasmo e de grande alegria. E é-o precisamente porque reconhecemos o desejo de corresponder àquilo que nesta entrevista é dito pelo P. João, mas que poderia ser subscrito por todos: «Creio que o universo cultural e a arte que nos interessam são exatamente aqueles movimentos que se orientam à formação de um lugar privilegiado para essa conexão». Um lugar que se presta ao encontro, que liga os diferentes, que tem portas abertas à discordância, à experimentação e ao erro, que se debruça sobre a totalidade da experiência humana, que se aventura com pés e mãos sujas floresta adentro, que recusa a inevitabilidade do pensamento apressado, que parte de uma nova hermenêutica do olhar. E, acima de tudo, que compreende que a esfera teológica (e, poderíamos acrescentar, espiritual, moral, social, familiar...) não é separada e não é separável de todo o resto da realidade. Tudo isto é o entendimento que a Brotéria tem da sua vocação e da sua circunstância. Este é o lugar que queremos construir e para o qual convocamos a participação e colaboração de todos os que se cruzam connosco.

A ideia do lugar é fundamental para a Brotéria. O lugar, entendido neste sentido processual que o Papa Francisco refere em Evangelii Gaudium [EG 223], é mais do que um sítio ou mais do que meramente um espaço. É a possibilidade de tornar real, concreta, tangível, a visão que se tem para o mundo. O lugar é a condição de possibilidade para que as intenções se tornem reais. Intenções que não encontram lugar são intenções vagas, apenas sonhadas, sem forma. São utópicas, eternamente adiadas, nunca realizadas. Em última análise, são motivo de frustração e de destruição: de frustração, porque não constroem, de destruição, porque, no mínimo, desmotivam aqueles que se propõem construir. Transformam-se em distopias ou em maus lugares…

Por essa razão, queremos, ao longo dos próximos meses, entrar num caminho que não começa nem acaba connosco, para, com humildade, ajudar a encontrar, no estado atual do nosso mundo, lugares, pessoas e modos de vida que sejam bons e transformadores. Inquieta-nos, por exemplo, que a paz, o cuidado da terra e a construção da comunidade sejam ideais de difícil concretização. Que não encontrem lugar. A luta por melhorar o nosso mundo é lenta e acidentada. É, de facto, «cheia de contradições, absurdos, dissonâncias e tantos outros processos surpreendentes». E opera, de facto, à imagem do que São Paulo escreve aos Romanos quando diz que toda a realidade se encontra permanentemente “em trabalho de parto”, com tudo o que isso implica de necessidade constante de se abrir à luta, ao esforço e ao confronto.

Ao mesmo tempo, reconhecemos que a realidade do nosso tempo continua a conter elementos concretos de esperança – e confiamos que o desejo de encontrar e mostrar esses elementos, esses lugares portadores de bem e de bondade, tem capacidade para abrir a porta a grandes transformações. Os bons lugares existem e são abundantes. Assim, em 2023, mais do que resolver temas, interessa à Brotéria construir um modo de encarar a realidade que abre caminhos de vida nos tempos incertos que vivemos. Podemos ao longo deste ano contribuir para reconhecer no nosso mundo lugares que são portadores de esperança? Lugares nos quais a expetativa se concretiza? Lugares bons, eutopos, impregnados de vida e de futuro? Sabemos que vivemos tempos complexos, onde a ambiguidade se faz presente, mas que, simultaneamente, contêm, em si mesmos, luz e redenção e alento. Mostrar e promover tudo isso é aquilo a que, como linha geral, a Brotéria se propõe.

Só se podem em conjunto construir bons lugares se se assumir que a discórdia e a diferença fazem parte do são processo de fazer caminho em conjunto. Essa é a experiência da Brotéria, mas é também a experiência da Igreja. A confiança fundamental de qualquer cristão é de que a realidade criada por Deus é boa e é portadora de bem. Chamada à luta contra o pecado que fere a pessoa e a realidade, mas com consciência de que esta luta é desigual: é à salvação que toda a realidade é chamada e para qual é conduzida. Infelizmente, aquele que desconfia permanentemente do outro que é diferente de si e o vê como agressor arrisca-se a eliminar do seu olhar a possibilidade de reconhecer novo bem na criação de Deus. É verdade que muito bem já foi revelado e concretizado no nosso entendimento moral, social, político e familiar do mundo. Ao mesmo tempo, uma teologia da criação que olha para a criação de Deus como estando terminada esgota a possibilidade de Deus continuar a revelar-se, a mostrar quem é, a alargar o entendimento daqueles que procuram viver de acordo com o Evangelho.

Esta chamada de atenção é especialmente importante nos nossos dias. Referimo-nos, frequentemente, aos nossos tempos como sendo tempos polarizados, fragmentados, de algum sectarismo. Há questões de moral sexual, de ideologia política ou de evolução científica que causam grandes cisões e fraturas entre indivíduos, comunidades ou famílias. Recear a discórdia, porém, é matar a possibilidade de o Espírito falar e de revelar novidade. De revelar novo bem. Posto num axioma: quanto mais complexa e multifacetada for a realidade, maior abertura é requerida àquele que crê na bondade da Criação. Só um olhar aberto à surpresa pode encontrar pertinência no futuro. Um olhar que dá a revelação de Deus por completa só pode viver na ânsia do passado e daquilo que não foi perturbado pela mudança trazida pelas épocas. Porém, um olhar assim é cristãmente insuficiente. Um olhar estático, preso num lugar anacrónico, sedimentado, não pode reconhecer novo bem, mas, apenas, bem já anteriormente revelado. Seria um olhar sem espírito, apenas de carne, condenado ao apodrecimento.

A busca de novos bons lugares pode ser desconfortável e por vezes ambígua, mas é condição de possibilidade de fidelidade à vida vivida em busca do Criador que se revela na totalidade da realidade. A programação da Brotéria procura sempre espelhar essa busca. Escrutina aquilo que é herança recebida, acolhe com gratidão e afeto tudo o que já foi revelado, mas, ao mesmo tempo, abre a porta ao que podem ser caminhos futuros de esperança, de alegria e de paz. As conferências que este ano começarão têm isso em mente: na universidade, no nosso modo de adquirir conhecimento, na forma como dispomos as nossas casas, que bem podemos encontrar? Também nos Cursos da Aula da Esfera e nos três seminários que, em 2023, arrancarão se coloca a mesma questão: que lugares, que novos horizontes e olhares, podem ser despertados a partir da filosofia, da estética, da liturgia, ou da educação? E, nas exposições patentes na galeria, a mesma questão está presente: que nova beleza é revelada, que novo interior é descoberto, que novas comunidades podem nascer?

Começar este ano conscientes de habitar lugares cheios de contradições, mas que podem ser e que, muitas vezes, são, simultaneamente, bons e ignorados e mostrá-los, revelá-los, conscientes de que o Criador cria uma realidade boa e cujo bem não está esgotado: isto é aquilo a que a Brotéria se propõe em 2023, abrindo as portas de sua casa a todos aqueles que nela queiram entrar e empreendendo caminhos de saída que, ao longo do ano, mostrarão o quanto desejamos levar estes bons lugares aos outros lugares que, normalmente, nos são distantes.

 

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